Vovó Bibia

"Quem não vive para servir, não serve para viver."

Bibia falava assim para quem quisesse ouvir. A disposição em ajudar o próximo esteve sempre presente na vida de Severina de Araújo Brito e, após sua partida aos 89 anos, permanece presente nos corações tocados por ela e na Casa Vovó Bibia, Instituição Sem Fins Lucrativos que recebe, acolhe e
transforma pessoas na terceira idade em cidadãos atuantes e protagonistas de suas próprias vidas e alegrias.


Natural de Vitória de Santo Antão (PE), casou com Afonso de Brito Carneiro, com quem teve oito filhos e adotou mais cinco, que lhes deram 22 netos e sete bisnetos.


Além de dinâmica, Vovó Bibia era uma mulher de fé. Batizou, crismou, fez a primeira comunhão e casou na igreja todos os seus filhos(as), na sua vida familiar e social sempre tinha um padre presente, um amigo orientador espiritual da doutrina católica.


Em 1983 pediu e obteve autorização da paróquia do Cordeiro para reabrir a capela de Santa Terezinha, construída em 1940. A missão religiosa e a importância da igreja sempre foram muito fortes e, durante sua jornada, foi agraciada com a aproximação em vida de Dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife.


De personalidade peculiar, exercia desde criança uma certa liderança sobre os irmãos e irmãs, por apresentar uma personalidade bastante decidida, determinação e um posicionamento muito forte.


Trabalhou com várias atividades, sempre com alegria. Partindo da costura e outras prendas domésticas, também empreendeu em um pensionato para moças (em frente ao colégio das freiras), vendeu roupas, calçados e plantas ornamentais, até que passou a se reconhecer na pintura e nas paisagens que retratava com brilho nos olhos. Era uma
artista, da pintura e da solidariedade.


A vocação para a solidariedade apareceu muito cedo na vida da vovó Bibia, desde muito jovem sofria ao ver a desigualdade e ajudava as pessoas doentes e necessitadas. Ela se comovia com a realidade e dificuldade dos mais carentes e necessitados, levava para casa pessoas carentes, doentes mentais e ex-presidiários, procurava arrumar vaga no colégio, vaga de emprego, vaga em hospitais, dar um dinheirinho para passagem, distribuir um medicamento, doar cestas básicas (chegando a distribuir no natal cerca de 300 cestas básicas), visitava hospitais levando roupas e calçados, lençóis e cobertores, casacos de frio e alimentos.


Passou a pedir na comunidade, no comércio, na família. Juntava tudo e redistribuía com os que diariamente a procuravam em sua casa - nascia a semente do surgimento da instituição social: casa vovó Bibia.


Com a morte do marido, em 1979, o seu desejo de ajudar se acentuou ainda mais. Desde aquele Natal passou a distribuir cestas básicas e a colocar o seu sonho num patamar cada vez mais elevado: queria a casa onde pudesse dar a todos assistência mais adequada. Passou a ser reconhecida como Vovó Bibia, pela forma natural e materna de
cuidar das pessoas.

Também esteve envolvida com o folclore e a cultura popular durante toda sua trajetória- seu pai era folião nato, mestre de um bloco de carnaval com instrumentos de sopro, participava das quadrilhas no São João e adorava o pastoril no Natal. Foi então que, nesta mesma época, início dos anos 80, incentivada por sua filha Salete, fundou o Pastoril Menino Jesus Vovó Bibia, formado originalmente pelas netas, e que existe até os dias de hoje, já tendo se apresentado em instituições como Hospital do câncer, Imip, Nacc, abrigos e igrejas, como forma de amenizar o sofrimento dos doentes.


Tanto comprometimento com o amor ao próximo e com a necessidade de unir esforços em prol de mais e mais pessoas, em 2004, aos 89 anos de idade, hospitalizada, pede licença ao seu médico e vai pessoalmente com o apoio de sua família e dos amigos mais próximos inaugurar a ONG - Casa de Apoio ao Idoso Vovó Bibia, no dia 24 de junho de 2004. A instituição, que completa 15 anos em 2019, foi pioneira no trabalho na conscientização da família para que não internasse o seu idoso em casas geriátricas de longa permanência, proporcionando qualidade de vida da Pessoa Idosa, tornando-a cidadã, ciente de seus direitos, principalmente o direito de ser feliz e viver cada momento da vida, que para Vovó Bibia, era uma dádiva.

 

Não gosto de ver ninguém com cara feia e nem de mau humor. As pessoas têm que entender que a vida é uma dádiva de Deus, devendo ser vivida com alegria, dizia dona Bibia.

 

Apesar da falta de recursos, o projeto conta com a ajuda de familiares, amigos e parceiros da comunidade. Segue com a obstinação de Vovó Bibia presente em cada detalhe, além de valores como a força e a fé, a coragem para lutar, não se render e não se sentir vencido, lutar sempre, até conseguir.


Vovó Bibia deixou mais do que uma instituição de apoio à terceira idade, deixou um legado, capaz de perpetuar por gerações junto com o entusiasmo de exercer o amor ao próximo, de fazer a diferença, mesmo sem recursos, pois o recurso mais importante para ela era a disposição. Ah, e a alegria, pois sabedoria, em sua visão, era celebrar a vida
com alegria, em todas as fases, principalmente, na fase da melhor idade.